viagens de comboioCarlos Cipriano / http://jornal.publico.clix.pt/noticias Entre o Porto e Barcelos os passageiros podem pagar 3,67 ou 5,70 euros para uma viagem exactamente igual No mundo dos comboios, há casos em que em vez de um bilhete para uma viagem o melhor é comprar dois títulos para o mesmo percurso. Complicado? Talvez, mas do que não há dúvidas é que sai muito mais barato. Veja-se o caso da ligação entre Porto e Barcelos: livre-se de fazer o óbvio, que é comprar um bilhete para a estação de destino. Vá à bilheteira e compre dois bilhetes: um apenas até Nine e outro de Nine para Barcelos. O primeiro custa 2,50 euros e o segundo 1,17 euros. Tudo somado, a viagem custa 3,67 euros, mas se fosse comprar um único título de transporte pagaria 5,70 euros. Para quem faz a viagem frequentemente, é dinheiro que se poupa. E mais ainda tratando-se de alguém com assinatura mensal: em vez de pagar 129 euros pela ligação Porto-Barcelos, fracciona-o em dois (Porto-Nine e Nine-Barcelos) e pagará apenas 70,65 euros. Ou seja, o cliente da CP poupa assim 58 euros por mês, 700 euros por ano. "O sistema tarifário da CP é uma manta de retalhos, fruto de muitas emendas ilegais que foram feitas ao longo dos anos sem qualquer intervenção articulada", diz Jorge Morgado, da DECO, que vai reunir-se hoje com a administração da empresa, para discutir este assunto. Os arredondamentos desfavoráveis aos passageiros contrariam a proposta que o instituto regulador preparou há dois anos para ser apresentada ao Governo sobre o tarifário da CP e que não foi ainda aprovada. E a própria Comissão Europeia tem vindo a dar sinais de que pretende repetir no caminho-de-ferro aquilo que fez para o transporte aéreo, que é o reforço dos direitos dos passageiros. O que está em causa neste caso são arredondamentos ilegais que a transportadora tem vindo a fazer. Um passageiro que viaje 50 quilómetros e 100 metros paga como se percorresse exactamente 51 quilómetros. A questão é que o preço cai, assim, no escalão seguinte (também ilegal), que vai dos 51 aos 70 quilómetros, quando deveria enquadrar-se no preço previsto para as distâncias entre os 46 aos 50 quilómetros. Barcelos é o caso mais paradigmático, porque dista 50 quilómetros e 300 metros de Campanhã e os clientes pagam tanto como se a viagem fosse de 70 quilómetros. Ao fraccionar a viagem com dois títulos de transporte, os passageiros aproveitam o facto de entre Barcelos e Nine a viagem ser feita na CP-Regional, enquanto a ligação entre Nine e o Porto está abrangida pelas tarifas suburbanas, logo, mais baratas. A discrepância é ainda mais acentuada pelo facto de a maioria das ligações ferroviárias entre as duas cidades obrigar a um transbordo na estação de Nine. Assunto levado à Assembleia da República Este caso foi levado à Assembleia da República na semana passada pelo deputado Fernando Pereira (PSD), que questionou a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, sobre o facto da CP, "apesar do conhecimento do Governo, continuar a praticar irregularidades no cálculo do preço dos bilhetes". O deputado insistiu que os arredondamentos utilizados e a tabela de distâncias que a transportadora usa são ilegais e prejudicam milhares de utentes todos os dias. A governante rejeitou as críticas, mas reconheceu que o tarifário da CP necessita de uma profunda revisão, que estará a ser feita sob a égide do recém-criado Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres, que é o organismo regulador. Também a deputada Helena Pinto, do BE, deu o exemplo de uma viagem Entroncamento-Lisboa que custa 7,50 euros, mas que pode ser feita por 5,80 se o cliente a fraccionar num troço inicial até ao Setil. Agostinho Lopes, do PCP, comparou os arredondamentos da CP aos da banca e aos das auto-estradas, concluindo que "neste país cada um arredonda como quer", desde que com isso ganhe dinheiro. Fernando Pereira confrontou ainda a governante com a discrepância nos preços dos bilhetes para as ligações a Braga e a Barcelos, cidades que ficam sensivelmente à mesma distância do Porto. Enquanto um bilhete para Braga custa 2 euros, a ligação a Barcelos chega aos 5,70 euros. Uma diferença que não decorre apenas da Cidade dos Arcebispos ser servida pela rede de suburbanos do grande Porto e Barcelos pertencer à esfera da CP-Regional. Tem também a ver com o tal arredondamento ilegal que atira Barcelos para a distância tarifária de 70 quilómetros em vez de 50. Quando dois bilhetes saem mais baratos do que um
Preços de comboios regionais descem 3% e inter-regionais 6% João Paulo Madeira / http://jn.sapo.pt/2008/04/30/economia_e_trabalho/ CP vai poder fixar livremente os preços dos regionais e inter-regionais A secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, garantiu ontem, no Parlamento, que a revisão tarifária na CP, que ocorrerá no próximo mês, conduzirá a reduções médias de 3% nas ligações regionais e de 6% nos percursos inter-regionais, mas não pormenorizou o período em que as descidas se farão reflectir. A Deco, contudo, considera que a "tendência natural" das tarifas é de subida, em consequência do novo enquadramento legal do transporte ferroviário, que entrou em vigor no sábado passado. Por esse motivo, estranha a descida anunciada. A nova legislação do sector estabelece a obrigatoriedade de aprovação dos preços do transporte ferroviário urbano e suburbano pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres. Nas tarifas das ligações regionais e inter-regionais, contudo, a CP está apenas sujeita ao "dever de comunicação" àquele instituto e a formação do preço passa a ter como critério-base a quilometragem percorrida e não o estabelecimento de zonas, como acontecia até agora. Segundo fonte da CP, isto permitirá à empresa "corrigir discrepâncias", mas implicará um período transitório. Nos percursos que registam descidas de preços, a mudança nas tarifas ocorre em dois anos. Nos casos em que há subidas, os preços serão alterados em cinco anos. Ontem, numa audição parlamentar, e perante a preocupação dos deputados com subidas de preços, a secretária de Estado garantiu que as mudanças, que serão anunciadas em Maio, vão gerar diminuições médias de preços. Mas não especificou em que período e se tais valores já incluem a ponderação das subidas que vão ocorrer em alguns troços. Ana Paula Vitorino deu apenas alguns exemplos o troço Porto-Barcelos passará de 5,7 euros para 5,1 euros, uma redução de 10,5%. Já no caso da ligação Barcelos-Famalicão, o preço passará de 1,32 euros para 1,35 euros, uma subida de 2,3%. A Deco, que já havia manifestado reservas quanto à livre fixação das tarifas pela CP, por poder pôr em causa o cumprimento do serviço público, estranha a descida anunciada. "As ligações regionais e inter-regionais são exactamente as que geram mais défice de exploração, por terem menos transportados. A tendência natural será, no futuro, de aumento dos preços para compensar os custos", explicou ao JN Carla Oliveira, jurista associação. Estação em estudo Durante a audição parlamentar, Ana Paula Vitorino revelou, também, que está a ser estudada, na ligação Porto-Vigo, a introdução de uma estação intermédia entre Braga e Valença. Naquele trajecto, Ponte de Lima aparenta ser a solução mais óbvia, uma vez que é a mais urbanizada. Já o ministro das Obras Públicas, Mário Lino, revelou que o diploma que cria as Autoridades Metropolitanas de Transporte será publicado em breve, e que, além de verbas do Orçamento do Estado, aqueles organismos poderão obter financiamento através da cobrança de taxas ou da atribuição de concessões.